Sete meses após a criação, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI do INSS) não apenas tenta avançar na apuração de fraudes contra aposentados, como também ampliou a visibilidade digital de seus integrantes. Um levantamento da consultoria Bites, feito a pedido de O TEMPO Brasília, aponta crescimento expressivo de seguidores nas redes sociais desde agosto de 2025.
Carlos Viana lidera avanço nas redes
De acordo com os dados, o presidente do colegiado, senador Carlos Viana (Podemos-MG), foi quem mais ganhou engajamento no período. Ele passou de cerca de 310 mil para 1,78 milhão de seguidores, um aumento de aproximadamente 1,48 milhão — crescimento estimado em mais de 400%.
Na sequência aparecem a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), com alta de 1,25 milhão, o deputado Marcel Van Hattem (Novo-RS), com 794 mil, e o relator, deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), com 540 mil. Também registraram avanço o senador Rogério Marinho (PL-RN), com 381 mil novos seguidores, e o deputado Paulo Pimenta (PT-RS), com 283 mil.
O levantamento considera o desempenho em Instagram, Facebook, YouTube e TikTok. Criada para investigar um esquema de descontos indevidos em benefícios previdenciários, estimado em R$ 6,3 bilhões, a comissão, segundo especialistas, acabou sendo usada por parlamentares como palanque eleitoral.
Interações também sobem e apontam “tração”
Além do volume de seguidores, a análise mediu a chamada “tração”, indicador que pondera o total de interações nas redes. Nesse critério, os destaques foram Marcel Van Hattem, Carlos Viana, Damares Alves, Rogério Marinho e Alfredo Gaspar.
Ao longo de 37 sessões, marcadas por embates políticos e impasses com o Supremo Tribunal Federal (STF), Damares e Viana lideraram a maior parte do tempo, com picos pontuais de engajamento de Van Hattem e, em menor escala, de Paulo Pimenta.
Segundo a Bites, o desempenho digital de Viana esteve associado aos momentos de maior tensão política da comissão. A consultoria afirma que a dinâmica reforça um padrão já observado no Congresso: CPIs funcionam como vitrines políticas, capazes de ampliar alcance, testar narrativas e projetar nomes.
De acordo com a análise, desde o início a CPMI do INSS vem sendo marcada pela adaptação de parlamentares ao ambiente digital, com transmissões ao vivo, vídeos curtos e conteúdos voltados às redes sociais. A audiência das sessões transformou o colegiado em um espaço estratégico de comunicação política, impulsionando não apenas as investigações, mas também a construção de capital eleitoral.
Ganho de seguidores não significa, necessariamente, votos
Apesar do avanço nas redes, a avaliação é que o crescimento de seguidores não se traduz automaticamente em votos. O engajamento aparece como apenas um dos fatores na construção de força política. Ainda assim, mesmo com a alta registrada na CPMI, os números seguem inferiores aos de nomes centrais do cenário nacional: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) soma cerca de 38 milhões de seguidores, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) tem mais de 18 milhões.
Parte dos integrantes que mais cresceram é apontada como potencial candidata ao Senado ou a outros cargos majoritários. O texto cita o caso do relator Alfredo Gaspar, que avalia disputar uma vaga para a Casa Alta por Alagoas, em um cenário que envolve nomes como o senador Renan Calheiros (MDB-AL) e o deputado Arthur Lira (PP-AL).
O que dizem especialistas sobre CPIs e estratégia eleitoral
Para especialistas, o cruzamento entre investigação parlamentar e estratégia eleitoral reforça o papel das redes sociais como extensão da atuação política e, no caso da CPMI do INSS, como um dos principais legados paralelos à própria apuração.
O professor de Direito Eleitoral Rubens Beçak, da Universidade de São Paulo (USP), avalia que a visibilidade decorrente da participação em CPIs é inerente à atividade parlamentar e não deve ser vista, por si só, como desvio.
Quanto mais atividade o parlamentar tiver, maior vitrine ele teráRubens Beçak
Beçak, porém, faz uma ressalva: o problema, segundo ele, surge quando a comissão ultrapassa suas funções institucionais e passa a adotar práticas com objetivo prioritário de gerar repercussão, desvirtuando o papel investigativo em favor de ganhos políticos.
Já o advogado Alberto Rollo, também especialista em direito eleitoral, destaca que, na prática, a exposição gerada pelas CPIs tende a se converter em vantagem política, sobretudo em um cenário em que as redes ampliam o alcance da atuação parlamentar. Ele aponta que, mesmo quando comissões não produzem resultados concretos, o ganho de visibilidade pode influenciar o desempenho eleitoral.
Em outra linha, o advogado Luiz Gustavo de Andrade critica o uso das CPIs como instrumento de promoção pessoal. Para ele, a utilização de estruturas públicas para autopromoção compromete a integridade das instituições e a confiança da sociedade. Ele também chama atenção para o risco de desgaste institucional quando comissões se prolongam sem conclusões claras, o que pode gerar descrédito junto à população.
Também especialista em Direito Constitucional, o advogado Erick Pereira avalia que as CPIs concentram alta visibilidade e podem impulsionar a imagem de parlamentares, com potencial de gerar ganhos eleitorais. Por outro lado, ele alerta para riscos quando a atuação prioriza a exposição midiática em detrimento do caráter técnico, o que pode produzir efeito contrário.