Coaf aponta que empresa da família de Daniel Vorcaro movimentou R$ 1,07 bilhão em transações ligadas ao Banco Master
Relatório cita cerca de 10 mil operações entre 2020 e 2025 e indica concentração de fluxo financeiro entre contas vinculadas ao dono do Master, com padrão que sugeriria ocultação de patrimônio
27/04/2026 às 08:11por Redação Plox
27/04/2026 às 08:11
— por Redação Plox
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Uma empresa da família de Daniel Vorcaro, chamada Multipar, movimentou mais de R$ 1 bilhão em cinco anos, em transações concentradas entre contas ligadas ao dono do Banco Master. Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) aponta que o padrão dessas operações sugere uma possível tentativa de ocultação de patrimônio.
O levantamento foi feito com base em um relatório de inteligência financeira do Coaf, com dados de 2020 a 2025, período em que Vorcaro estruturou o Master. A marca do banco foi criada em 2021, após o Banco Central autorizar, em 2019, a compra do banco Máxima.
Em negociações para delação premiada, Vorcaro está preso na Superintendência da PF em Brasília (DF)
Foto: Reprodução
Coaf aponta troca de recursos e possível quebra do rastro do dinheiro
O documento do Coaf cita a “troca de recursos entre empresas/pessoas do grupo, podendo representar uma tentativa de quebra do rastro do dinheiro”. No período analisado, a Multipar movimentou R$ 1,07 bilhão, com a maior parte do montante detalhada no relatório, incluindo origem e destino dos recursos.
A partir dessas informações, a reportagem identificou que pelo menos R$ 1 bilhão — cerca de 93% do total — saiu de ou foi para empresas e pessoas ligadas a Vorcaro ou ao banco. Na lista aparecem companhias, holdings e fundos de investimento que têm como sócios familiares, pessoas que trabalham para o grupo ou empresas já citadas em investigações.
O próprio Banco Master recebeu R$ 5,8 milhões da Multipar. A assessoria de imprensa de Vorcaro informou que não vai comentar o caso.
Defesa diz que movimentações são lícitas e contesta divulgação de trechos
todas as movimentações financeiras do grupo Multipar são devidamente contabilizadas, lícitas e transparentes
Eugênio Pacelli
Respondendo em nome de Henrique Vorcaro — presidente da Multipar e pai do ex-banqueiro —, o advogado Eugênio Pacelli também criticou a divulgação do conteúdo do documento.
“No meio de um contexto de tanta ilação, é inaceitável e causa indignação a divulgação seletiva de trechos de documentos sigilosos, prática que distorce o contexto, compromete a lisura dos fatos, afronta diretamente princípios éticos e legais e representa uma verdadeira ameaça ao processo legal”.
Vorcaro e cunhado são investigados por suspeita de fraude
Daniel Vorcaro está preso e é investigado sob suspeita de ter aplicado uma fraude bilionária no mercado financeiro por meio do Master. O cunhado dele, Fabiano Zettel, ex-pastor da Igreja Batista da Lagoinha, também está preso, sob suspeita de integrar o esquema.
As investigações indicam que o grupo teria usado fundos de investimento e empresas de fachada para transferir ativos entre si — incluindo papéis de baixa qualidade — com o objetivo de inflar artificialmente o valor de empresas e da instituição financeira, sem lastro na realidade.
Relatório cita milhares de transações entre empresas relacionadas
O caso da Multipar, segundo o material, reproduz parte desse padrão ao concentrar a circulação de dinheiro dentro de um conjunto de empresas conectadas — ponto que motivou o alerta sobre as movimentações. O relatório lista cerca de 10 mil transações envolvendo um grupo de pouco mais de 30 empresas relacionadas, de alguma forma, à família Vorcaro ou ao Master.
O documento também destaca o fundo GFS, que recebeu R$ 47 milhões da Multipar e repassou R$ 15 milhões de volta. O fundo é administrado pela Reag, a mesma gestora que administrava fundos suspeitos de realizar transações fraudulentas para uma rede ligada ao Banco Master, com o intuito de inflar o valor de ativos e patrimônio.
Quem são os sócios e as conexões com outras holdings
A Multipar é uma holding de instituições não financeiras e tem dois sócios: Henrique Vorcaro e Natália Vorcaro, irmã do ex-banqueiro e esposa de Fabiano Zettel. No último mês, a Folha tentou contato com Natália, por mensagem e ligação, mas não obteve resposta.
O relatório registra movimentações relevantes entre partes relacionadas e aponta “possível uso da conta como canal de passagem”.
Transações com Alliance e Hebron reforçam padrão apontado no relatório
O material cita movimentações com a Alliance Participações, descrita como praticamente idêntica à Multipar por ter o mesmo quadro societário (Henrique e Natália Vorcaro) e a mesma área de atuação, como holding. A Multipar transferiu R$ 51,4 milhões para a Alliance e recebeu R$ 27,1 milhões de volta.
O texto também aponta a relação com a Hebron Participações, descrita como principal parceira econômica da Multipar e atuante no mesmo ramo. A empresa tem como sócios Henrique Vorcaro e uma terceira holding e também pertence ao pai do ex-banqueiro.
Entre 2020 e 2025, a Hebron aportou R$ 419,2 milhões na Multipar em mais de mil transações. No caminho inverso, foram R$ 104,3 milhões, em 352 transações. Segundo o material, foi a empresa que mais repassou recursos à Multipar e a que mais recebeu valores de volta.
Ativos ambientais e repasses para pessoas físicas da família
Na rede de empresas, a Alliance volta a aparecer associada à suposta fraude de R$ 45 bilhões em ativos ambientais da família. Ainda em nome de Henrique Vorcaro, o advogado Eugênio Pacelli negou irregularidades no caso, afirmou que o projeto foi desenvolvido por terceiros e disse que, “como investidor, [ele] adotará as medidas legais cabíveis para ressarcimento dos investimentos”.
O relatório do Coaf também aponta transferências milionárias para contas pessoais de membros da família Vorcaro. Henrique recebeu R$ 14,7 milhões da Multipar e repassou R$ 1,4 milhão de volta para a empresa. Natália recebeu R$ 6,4 milhões e devolveu R$ 1,9 milhão.
A mãe de Daniel Vorcaro, Aline Vorcaro, aparece direta ou indiretamente (por meio de sociedades) e recebeu R$ 20,9 milhões em sua conta pessoal — o CPF que mais foi beneficiado com recursos da Multipar no período. A Folha informou que não conseguiu localizar seu contato.