PF deflagra operação nacional contra abuso sexual infantil e cumpre 159 mandados
Ação ocorre nesta terça (28) em todos os estados e no DF, com 16 mandados de prisão e foco em identificar e prender suspeitos de crimes contra crianças e adolescentes.
Para muitos, a escola é um lugar de aprendizado. Para Hellen Cristina Luzia Leoncio de Souza Nascimento, foi também abrigo, alimento e recomeço. Nascida na zona rural de Periquito, no leste de Minas Gerais, e criada em uma família de cinco irmãs, ela viveu uma infância marcada pela pobreza e pela vulnerabilidade social. Foi na sala de aula que percebeu, pela primeira vez, que a vida poderia seguir outro rumo.
Hoje, aos 34 anos, Hellen leciona há mais de uma década nas redes municipais de Timóteo e Coronel Fabriciano e diz se sentir realizada por ter alcançado um sonho que parecia distante: tornar-se educadora. No Dia Mundial da Educação (28/04), sua trajetória ganha ainda mais peso — não apenas pela superação, mas pelo impacto que vem gerando entre estudantes das periferias do Vale do Aço.
Eu não acreditava que conseguiria ser professora. A educação me fez acreditar em mim quando eu mesma não acreditava
Hellen Cristina Luzia Leoncio de Souza Nascimento
A falta de acesso ao básico, como alimentação regular, fez da escola um refúgio. Ali, ela encontrou espaço para ler, se alimentar e se proteger — e, com o tempo, descobriu o afeto pela educação. Inspirada pelos educadores que a acolheram, transformou esse vínculo em propósito.
Aos 17 anos, Hellen saiu de casa para trabalhar como doméstica em Timóteo. Entre uma jornada e outra, continuou estudando. Com incentivo, ingressou no Cefet, formou-se em metalurgia, mas percebeu que seu caminho era outro. Com uma bolsa pelo ProUni, concluiu a faculdade de pedagogia e, pouco tempo depois, já estava em sala de aula, onde afirma ter encontrado sua missão de vida.
Foi com esse olhar que a professora passou a atuar no Programa Nacional de Educação Empreendedora (PNEE), do Sebrae Minas, iniciativa que leva a cultura empreendedora para dentro das escolas. Na Escola Municipal Novo Tempo, em Timóteo, o programa se desenvolveu em uma comunidade com escassez de recursos, informalidade e desafios sociais históricos.
A proposta é estimular a circulação de renda dentro do próprio território, conectando moradores e comerciantes.
Foto: Divulgação
Com a metodologia do PNEE, Hellen e outros educadores passaram a trabalhar não apenas conteúdos tradicionais, mas também competências empreendedoras, comportamentos, projeto de vida e senso de pertencimento. O resultado ultrapassou os limites da sala de aula: os estudantes passaram a observar o território com mais atenção, identificar problemas, mapear oportunidades e propor soluções.
Entre as iniciativas, uma ganhou destaque: o desenvolvimento de um aplicativo para reunir e divulgar pequenos empreendedores do bairro, incentivando o consumo local e fortalecendo a economia da comunidade. A proposta é estimular a circulação de renda dentro do próprio território, conectando moradores e comerciantes.
Iniciado em 2024, o projeto envolveu toda a escola, da educação infantil aos anos finais do ensino fundamental, e segue em expansão. A cada ano, os alunos trabalham em melhorias e atualizações. A expectativa agora é disponibilizar o aplicativo nas lojas digitais, ampliando o alcance da iniciativa.
O trabalho rendeu a Hellen o primeiro lugar na etapa estadual do Prêmio Educador Transformador, promovido pelo Sebrae. Com isso, ela representará Minas Gerais na etapa nacional, em São Paulo, no início de maio. Para a professora, o reconhecimento vai além do aspecto individual e reforça a força de uma educação conectada à realidade dos alunos.
Dentro da sala de aula, segundo o relato, o impacto aparece na forma como os estudantes passam a se enxergar. Muitos se identificam com a trajetória da educadora e começam a acreditar que também podem ir além. A mensagem central é que o ponto de partida não determina o destino.
Para Hellen, ensinar não se resume a transmitir conteúdo. Envolve acolher, escutar e ajudar o aluno a se reconhecer como sujeito capaz de transformar a própria realidade. Na avaliação da educadora, especialmente na periferia, um dos maiores desafios é fazer com que o estudante se veja como alguém com potencial — e encontre apoio para desenvolver essa confiança.
Essa visão se conecta aos princípios do PNEE, voltado ao desenvolvimento de autonomia, protagonismo e pensamento crítico, preparando os estudantes não apenas para o mercado, mas para a vida. Na história de Hellen, a educação aparece como caminho de mudança pessoal e, ao mesmo tempo, como ferramenta para transformar outras trajetórias.