MPT diz que compliance de grandes empresas falha em barrar trabalho escravo na cadeia produtiva

Órgão notificou mais de 30 companhias em dois anos após identificar compras de fornecedores flagrados com condições análogas à escravidão e fala em “cegueira deliberada”.

29/04/2026 às 17:35 por Redação Plox

O Ministério Público do Trabalho (MPT) concluiu que os sistemas de autorregulação, auditoria e compliance usados por grandes empresas não têm sido suficientes para impedir a presença de trabalho escravo em cadeias produtivas. Em dois anos, o órgão notificou mais de 30 companhias líderes em seus setores após identificar compras de bens ou serviços de fornecedores flagrados submetendo trabalhadores a condições análogas à escravidão, em ambiente degradante. 


Compliance usados por grandes empresas não têm sido suficientes para impedir a presença de trabalho escravo em cadeias produtivas.

Foto: Divulgação/ MPT


Autorregulação e auditorias não impedem violações nas cadeias produtivas

Está havendo uma discrepância muito grande entre o que é dito para os acionistas e para a sociedade em geral e o que está sendo feito, na prática, para prevenir o crime

procurador Ilan Fonseca de Souza, da Coordenadoria de Combate às Fraudes nas Relações de Trabalho (Conafret)

Em entrevista coletiva para divulgar resultados preliminares do projeto Reação em Cadeia — iniciativa voltada a identificar vínculos entre grandes companhias e a escravidão moderna — Souza afirmou que, em geral, as empresas investigadas garantem adotar mecanismos para evitar violações de direitos humanos. Segundo ele, porém, ao apurar o cumprimento e a efetividade das medidas anunciadas, o MPT encontrou documentos considerados meramente formais e lacônicos.

As companhias já notificadas, de acordo com o MPT, movimentam juntas mais de R$ 48 bilhões. Para Souza, esse dado enfraquece a tese de que o trabalho escravo seria um fenômeno isolado e restrito a negócios informais sem recursos para cumprir direitos trabalhistas. O órgão sustenta que as atividades em que a prática ocorre são rentáveis.

Setores mais sensíveis e suspeitas envolvendo empresas e prefeituras

Entre as atividades econômicas apontadas como “mais sensíveis”, por concentrarem mais trabalhadores em condições degradantes, estão carvoarias, fazendas de soja, café e cana-de-açúcar, construção civil e a indústria têxtil.

Além das grandes empresas já notificadas, o MPT informou ter identificado ao menos outras 20 companhias líderes e duas prefeituras suspeitas de negociar de forma sistemática com fornecedores implicados com o trabalho escravo. Parte desses fornecedores, segundo o órgão, já constava da Lista Suja do Trabalho Escravo, do Ministério do Trabalho e Emprego.

Como há casos em fase de apuração e as empresas ainda não apresentaram defesa, o MPT não divulgou os nomes dos investigados. O órgão afirmou que se limitou a informar aquelas que já são alvo de ação civil pública ou que assinaram termos de ajuste de conduta. De maneira geral, o conjunto de investigados inclui algumas das maiores redes de supermercados do país, multinacionais do setor de alimentos, grandes grupos da siderurgia, varejistas de moda e distribuidoras de combustíveis.

Troca de fornecedores e a “cegueira deliberada”

Segundo o MPT, quando flagradas adquirindo mercadorias ou serviços de fornecedores que submetem trabalhadores a condições ilegais, grandes empresas costumam romper contratos e anunciar a interrupção do fornecimento, substituindo a prestadora. O problema, conforme Souza, é que em muitos casos a empresa substituta repete as mesmas práticas — ou pertence aos mesmos donos do fornecedor anteriormente autuado.

Souza classificou esse comportamento como “cegueira deliberada”, argumentando que se torna mais conveniente, e juridicamente mais fácil, alegar desconhecimento quando não há esforço efetivo para verificar as condições de trabalho na origem do produto ou do serviço.

O procurador também destacou a dimensão do problema ao lembrar que, desde 1995, 65 mil trabalhadores foram resgatados em condições análogas à escravidão. Para o MPT, os números ainda não refletem a real extensão do cenário, tratado pelo órgão como uma “falha sistêmica”.

MPT defende mobilização social para enfrentar a exploração

Para a vice-procuradora-geral do Trabalho, Teresa Basteiro, a superação da exploração moderna do trabalho escravo no Brasil depende do envolvimento de toda a sociedade, e não apenas da atuação do Poder Executivo, forças policiais e Ministério Público. Ela afirmou que a conscientização sobre práticas produtivas pode reduzir situações que submetem trabalhadores a condições extremas e que trazer o problema à luz contribui para concretizar o valor social do trabalho e a dignidade da pessoa humana.

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