Dólar e Ibovespa reagem a dados de emprego e decisões de juros no Brasil e nos EUA

Mercado acompanha Caged e PNAD, enquanto Copom mantém Selic em 15%; nos EUA, Fed mantém juros e atenção se volta à sucessão de Jerome Powell

30/01/2026 às 09:40 por Redação Plox

O dólar iniciou a sessão desta sexta-feira (30) acompanhando de perto o cenário interno e externo. Já o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, passa a refletir, a partir das 10h, o humor dos investidores diante de uma agenda carregada de indicadores e decisões de política monetária.


Dólar, moeda norte-americana

Dólar, moeda norte-americana

Foto: FreePik

Os mercados abrem a sexta-feira dividindo a atenção entre a condução dos juros nos Estados Unidos e os dados mais recentes do mercado de trabalho no Brasil. Lá fora, pesa a expectativa em torno da sucessão no Federal Reserve (Fed). Aqui, o foco recai sobre as estatísticas de emprego, em meio a sinais de perda de fôlego na criação de vagas formais.

Dólar, Bolsa e o foco nos dados de emprego

No Brasil, investidores seguem monitorando os números do mercado de trabalho após o resultado fraco do Caged em dezembro. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, o país gerou 1,279 milhão de empregos formais ao longo de 2025.

Nesta sexta-feira, o mercado aguarda a divulgação da taxa de desemprego de dezembro, medida pela PNAD Contínua. O dado é visto como peça importante para calibrar a leitura sobre a dinâmica do emprego na virada do ano e pode influenciar expectativas para crescimento, consumo e política monetária.

Veja o desempenho recente dos principais indicadores:

Dólar

Acumulado da semana: -1,75%
Acumulado do mês: -5,37%
Acumulado do ano: -5,37%

Ibovespa

Acumulado da semana: +2,39%
Acumulado do mês: +13,66%
Acumulado do ano: +13,66%

Sucessão no Fed e pressão política nos EUA

Nos Estados Unidos, a atenção dos agentes financeiros se mantém voltada para o anúncio do novo presidente do Federal Reserve. Donald Trump afirmou que revelaria nesta manhã o nome escolhido para substituir Jerome Powell, cujo mandato se encerra em maio, após um período marcado por atritos com a Casa Branca.

O nome de Kevin Warsh, ex-governador do Fed, ganhou força nas apostas depois de um encontro com Trump na Casa Branca. Também aparecem entre os cotados Rick Rieder, chefe de renda fixa da BlackRock, e Kevin Hassett, diretor do Conselho Econômico Nacional.

A sucessão no comando do Fed é vista como ponto sensível para a percepção de independência da autoridade monetária e para as expectativas em relação ao rumo dos juros e da inflação nos EUA.

Juros estáveis nos EUA, mas sem novos cortes à vista

Na véspera, a chamada “Superquarta” trouxe decisões de juros tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, em linha com o esperado pelo mercado.

Nos EUA, o Fed decidiu manter a taxa básica de juros no intervalo entre 3,50% e 3,75% ao ano, o nível mais baixo desde setembro de 2022. Com isso, interrompeu uma sequência de três reduções consecutivas. Na reunião de 10 de dezembro, o banco central havia cortado a taxa em 0,25 ponto percentual.

No comunicado, o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) apontou que o mercado de trabalho continua com pouca criação de vagas, embora a taxa de desemprego permaneça relativamente estável. O grupo ressaltou ainda que a inflação segue um pouco acima do desejado, o que justifica uma postura mais cautelosa.

Em entrevista, o presidente do Fed, Jerome Powell, adotou um tom mais firme que em dezembro, indicando que novos cortes de juros não devem ocorrer no curto prazo.

Segundo o economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, a economia dos Estados Unidos ainda está longe de uma recessão, apoiada em um crescimento robusto no terceiro trimestre de 2025, impulsionado por consumo das famílias, exportações e gastos do governo.

Para ele, o principal risco à frente não decorre da atividade em si, mas de fatores institucionais, especialmente a sucessão no comando do Fed e as dúvidas que isso pode levantar sobre o grau de autonomia da política monetária.

A possibilidade de maior interferência política ou da nomeação de um presidente com viés dovish [mais favorável a juros baixos] representa um risco relevante para a credibilidade do regime monetário, com potenciais impactos sobre as expectativas de inflação, o dólar e os mercados financeiros. Gustavo Sung

Copom segura a Selic, mas prepara terreno para cortes

No Brasil, o Banco Central também optou por manter os juros no nível atual. O Comitê de Política Monetária (Copom) deixou a taxa Selic em 15% ao ano, mas sinalizou que pode iniciar um ciclo de redução já na reunião de março.

A indicação de corte se ancora na expectativa de que a inflação caminhe para um padrão mais controlado nos próximos meses. Ainda assim, o BC reforçou que pretende agir com prudência, mantendo os juros em patamar restritivo por algum tempo.

Em comunicado, o Copom indicou que, caso o cenário projetado se confirme, deve dar início à queda dos juros na próxima reunião, mas de forma gradual, para não comprometer a convergência da inflação à meta oficial.

A Selic está hoje no maior patamar em quase 20 anos — desde julho de 2006, quando havia chegado a 15,25% ao ano. Integrantes do governo defendem uma redução mais rápida, argumentando que taxas muito elevadas encarecem o crédito, desestimulam consumo e investimento e acabam travando a atividade econômica.

Para Gesner Oliveira, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e sócio da GO Associados, a decisão do Copom reflete uma combinação de fatores: de um lado, projeções que apontam inflação apenas próxima da meta no início de 2027; de outro, o entendimento de que cortar juros de imediato poderia ser precipitado diante das incertezas externas e das dúvidas sobre a política fiscal e o controle das contas públicas.

Segundo o economista, o principal recado do encontro foi a comunicação mais clara sobre o início de um ciclo de baixa da Selic, com grande probabilidade de começar em março. A discussão no mercado agora se concentra no ritmo desse movimento, entre corte de 0,25 ou de 0,50 ponto percentual.

Auxílio-desemprego e déficit comercial nos EUA

A agenda econômica também trouxe novos dados sobre o mercado de trabalho e o setor externo norte-americano.

Os pedidos iniciais de auxílio-desemprego caíram levemente na semana encerrada em 24 de janeiro, somando 209 mil solicitações com ajuste sazonal, de acordo com o Departamento do Trabalho. Houve recuo de 1.000 pedidos em relação à semana anterior, cujo número foi revisado de 200 mil para 210 mil.

O resultado ficou um pouco acima da expectativa de 205 mil solicitações. Analistas destacam que semanas com feriados, como o de Martin Luther King Jr., tendem a gerar mais volatilidade nos dados, especialmente no início do ano, quando os ajustes estatísticos são mais complexos.

No comércio exterior, o déficit da balança comercial dos EUA teve salto expressivo em novembro, registrando o maior aumento em quase 34 anos. O saldo negativo avançou 94,6% e chegou a US$ 56,8 bilhões, segundo o Escritório de Análise Econômica e o Census Bureau, superando com folga a projeção de US$ 40,5 bilhões.

O movimento foi impulsionado pelo forte crescimento das importações, sobretudo de máquinas, computadores e semicondutores, ligado ao aumento dos investimentos em inteligência artificial. As importações totais avançaram 5,0%, para US$ 348,9 bilhões. As compras de bens cresceram 6,6%, para US$ 272,5 bilhões, com destaque para bens de capital, que aumentaram US$ 7,4 bilhões e atingiram recorde histórico, puxados por computadores e semicondutores.

Bolsa americana oscila e ouro dispara

Em Wall Street, os mercados encerraram a sessão sob influência direta da decisão do Fed de manter os juros inalterados, movimento amplamente antecipado pelos investidores. As declarações de Jerome Powell reforçaram a percepção de que as taxas estão, por ora, “em um bom patamar”.

O Dow Jones Industrial Average fechou em alta de 0,11%, aos 49.071,56 pontos. O S&P 500 recuou 0,20%, aos 6.963,76 pontos, enquanto o Nasdaq Composite caiu 0,72%, aos 23.685,12 pontos.

Os agentes também acompanharam a divulgação de balanços de grandes empresas de tecnologia e aguardam novos dados semanais de auxílio-desemprego. No mercado de commodities, chamou atenção a forte alta do ouro, que avançou mais de 2% e chegou a US$ 5.543 por onça-troy.

Europa cautelosa e Ásia reage a medidas na China

Na Europa, o tom foi de cautela, com investidores analisando resultados de empresas de tecnologia em busca de sinais concretos de monetização dos investimentos pesados em inteligência artificial dos últimos anos.

O índice pan-europeu STOXX 600 recuou 0,2%. Entre as principais praças, o CAC 40, de Paris, subiu 0,06%, e o FTSE 100, de Londres, avançou 0,17%. Já o DAX, da Alemanha, caiu 2,07%.

Na Ásia, o humor dos mercados melhorou após notícias de que reguladores chineses deixariam de exigir determinados indicadores financeiros das construtoras, conhecidos como as “três linhas vermelhas”. A medida é interpretada como afrouxamento nas restrições ao setor imobiliário.

O Hang Seng subiu 0,51%, aos 27.968 pontos. O índice de Xangai avançou 0,16%, aos 4.157 pontos, e o CSI300 teve alta de 0,76%, aos 4.753 pontos. Em outros mercados da região, o Nikkei, de Tóquio, ganhou 0,03%, o Kospi, de Seul, avançou 0,98%, e o Taiex, de Taipé, recuou 0,82%. As bolsas de Cingapura e Sydney fecharam em alta de 0,42% e queda de 0,07%, respectivamente.

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