OMS inclui presunto e outras carnes processadas na mesma classificação cancerígena do cigarro

IARC coloca presunto, salsicha, linguiça e bacon no Grupo 1 e meta-análise aponta aumento de 18% no risco a cada 50 g por dia

30/01/2026 às 19:44 por Redação Plox

A Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a classificar o presunto e outras carnes processadas como agentes cancerígenos para humanos, inserindo esses produtos no Grupo 1 de carcinógenos — mesma categoria em que está o cigarro. Essa classificação significa que há evidência suficiente de que essas substâncias causam câncer em humanos.


Carnes processadas e risco comprovado de câncer

De acordo com relatório da OMS, o consumo de carnes processadas, como salsicha, linguiça, bacon e presunto, aumenta o risco de câncer colorretal em humanos. O documento aponta que a carne processada é um fator de risco certo para o desenvolvimento da doença e agora está incluída no grupo de carcinogênicos para os quais já existe evidência consistente de ligação com o câncer.

O relatório foi elaborado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc, na sigla em inglês), vinculada à OMS. Em artigo publicado na revista científica The Lancet, pesquisadores da agência definem a carne processada como produtos transformados por salgamento, curagem, fermentação, defumação e outros processos destinados a realçar o sabor ou melhorar a preservação.

Um estudo de meta-análise, que avaliou diversos outros estudos, estima que cada porção diária de 50 gramas de carne processada aumenta o risco de câncer colorretal em 18%. Esse tipo de câncer é, hoje, o segundo mais diagnosticado em mulheres e o terceiro em homens, e provoca 694 mil mortes por ano, segundo dados mais recentes da OMS, de 2012.

Classificação igual ao cigarro não significa mesmo nível de risco

Embora estejam na mesma categoria de classificação da OMS, isso não significa que presunto e cigarro ofereçam o mesmo grau de perigo. A inclusão no Grupo 1 indica que há comprovação de que a substância causa câncer em humanos, mas não equipara a intensidade do risco entre os diferentes agentes.

Na prática, o tabagismo continua associado a ameaças muito mais amplas e severas à saúde, enquanto o consumo frequente de carnes processadas configura um fator de risco relevante, que merece atenção e pode ser reduzido com mudanças na alimentação.

Mecanismos que ligam embutidos ao desenvolvimento de tumores

Durante a digestão, componentes presentes em carnes processadas podem originar substâncias capazes de agredir o DNA das células do intestino, elevando a probabilidade de mutações e, consequentemente, de desenvolvimento de tumores.

O consumo regular de presunto, salsicha, bacon e outros embutidos também está associado a diferentes mecanismos biológicos considerados relevantes para o surgimento do câncer. Entre eles, estão a presença de nitritos e nitratos, que podem formar compostos potencialmente carcinogênicos; a produção de substâncias reativas no intestino, relacionadas ao estresse oxidativo; e o afastamento de alimentos protetores da rotina alimentar, como fibras, frutas e vegetais.

A Iarc identificou principalmente ligações com o câncer colorretal, mas também observou associações com tumores no pâncreas e na próstata.

Aumento do consumo de embutidos preocupa especialistas

A associação entre embutidos e risco de câncer já era conhecida, mas a inclusão desses produtos na lista da OMS funciona como um alerta para os brasileiros, que, segundo a nutricionista Sueli Couto, da Unidade Técnica de Alimentação, Nutrição e Câncer do INCA, vêm aumentando o consumo desse tipo de alimento.

De acordo com a especialista, mesmo os embutidos produzidos a partir de carnes brancas, como peito de peru defumado e blanquet, são prejudiciais à saúde por passarem pelos mesmos processos industriais aplicados às carnes vermelhas, com adição de substâncias para realçar o sabor e aumentar o tempo de prateleira.

Esses produtos passam pelo mesmo processo nas indústrias que os feitos a partir da carne vermelha. São adicionadas substâncias para realçar o sabor e dar mais tempo nas prateleirasSueli Couto

Diferença entre carne vermelha fresca e embutidos

Para Sueli, a principal diferença entre a carne vermelha fresca e os embutidos está no valor nutricional. A carne vermelha é considerada uma fonte nutricional importante e a recomendação é que seja ingerida até duas vezes por semana, podendo ser substituída, nos demais dias, por carnes brancas, ovos e outras combinações de alimentos com valor proteico semelhante, como arroz com feijão.

A alimentação saudável requer variedade e deve contemplar diferentes grupos de alimentos, com destaque para frutas e hortaliças, considerados protetores contra o câncer. As carnes complementam a dieta, porém a quantidade consumida está diretamente relacionada ao risco de desenvolver a doença: quanto maior o consumo, maior a probabilidade de ocorrência de câncer, alerta a nutricionista.

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